domingo, 11 de julho de 2010

Nas Aulas Violas (VI)


Fotografia de Ayshynek


Foi uma tremenda confusão. Passei o dia inteiro a insistir no mesmo tema, parecia tudo tão real mas, ou era apenas um pesadelo ou tudo sem explicação. As dores, as mazelas, os cheiros, os aromas, os paladares, as imagens, as memórias, tudo tão vivo como ao mesmo tempo tão morto e sem cadáver. Durante o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, um ínfimo de dias em que não parei de pensar no mesmo e, durante este tempo os feitos reduziram-se à prática do pensar repensar o mesmo assunto. Nem a música, nem a rádio, nem mesmo as minhas engenhocas fizeram as minhas delícias absolvendo-me de tal preocupação.


Entretanto passaram três semanas, para casa ligavam professores, escolas, amigos, colegas e até outros pais. Parecia o telefone uma total novidade mas isso não seria o mais importante. Hoje era dia da primeira consulta. Por certo, contorci-me por ter de lá ir mas por fim de contas não foi tempo perdido. Quando entrei no consultório vi uma senhora com alguma idade, talvez uns sessenta ou mais. Tinha um meandro cabelo grisalho e sujo, uns óculos gigantes de lentes grossas e uma bata branca. Com os olhos esbugalhados levantou-se e pediu que me sentasse e ao aproximar-me vi quanto era feia dispondo de um ar prepotente. Um rosto descaído nas bochechas seguras pelas maçãs desproporcionalmente salientes, olhos afastados e muito convexos rodeados por pálpebras côncavas,um nariz pontiagudo e uma boca em forma de arco de cruzaria em ogiva.


Pediu que me sentasse numa pequena mesa com umas folhas e uns lápis para fazer desenho,s um qualquer serviria. Para além de achar que havia entrado num filme de terror, agora achava-me perante uma louca. No entanto, comecei a fazer o pedido desenho. Um papagaio de penas multicolores sobre um ramo de uma qualquer árvore, apenas um desenho esboçado mas feito com todo o rigor e todo o regozijo das hipotéticas capacidades. Em seguida pediu-me que lho explicasse, disse lhe o seguinte:
-"...é um papagaio que está assim a admirar o que o rodeia!"
-"Mas ele está sozinho porquê?" - perguntou-me ela
-"Bem, o pai foi embora a mãe foi buscar comida para os irmãos e ele está a ouvir os sons do bosque!" - respondi prontamente à pergunta absurda.
-"E não tem ninguém para lhe fazer companhia? Um amigo ou algum dos irmãos?"
-"Não, ele já é crescido e não precisa da companhia de ninguém está bem sozinho e para ouvir os sons do bosque os outros fazem barulho...!"

-"Já estava a ficar farto de tantas perguntas mas afinal qual era o problema daquela mulher?! Não percebia ela que me pediu um desenho e que se eu desenhasse a família toda precisaria de uma parede e um dia?! Oh mãe ela era assustadora, muito feia, parecia saída de um filme..." - disse eu mal saí do consultório.


Passaram duas semanas após a consulta naquele antro de doidos, tudo voltava ao normal mas já passara um mês que não tinha uma aula de piano. Dizia sempre que não queria voltar lá mas no fundo tinha umas saudades imensas e, sem dúvida, era essa a minha maior repulsa. Eu gostava da escola, amava poder estudar música, adorava ainda mais o piano mas, ao mesmo tempo não queria estar lá por causa do professor. Já havia passado um pouco mais de um mês e eu já morria de saudades atirando me a um canto escondido para chorar por querer e não querer voltar à escola de música. Tudo me puxava para lá e tudo me puxava para cá, custava-me tanto querer ir e não poder e querer ir e não querer, uma revolta imensa que me fazia o desejo de rebentar por dentro, tal como se pudesse por a mão por entre o peito e arrancar a dor que lá sentia.


Estava a meio da semana e eu queria que tudo voltasse a ser como era, por isso quis vir sozinho para casa. Mal saí da escola despedi-me dos meus poucos amigos porque queria chegar cedo a casa e então não viria pelo caminho com eles. Saí com um pouco de medo mas tentei entreter a minha cabeça com outras coisas, os deveres, os trabalhos, os testes e por muitas outras coisas absurdas. A meio do caminho dei por mim num passo quase de corrida, com as costas muito direitas suportadas por uma força abdominal e com os braços esticados pelos músculos contraídos a gingar da frente para trás ao mesmo tempo que o meu olhar parecia um radar. Estava com medo de tudo e ao mesmo tempo do nada e, assim, segui até casa numa meia aflição ou mesmo num ataque de pânico. Quando cheguei a casa a minha mãe ainda não tinha chegado e havia correio, fechei rapidamente a porta enquanto verificava se estava em segurança e abri a carta.

"... o Diogo é uma criança muito madura para a idade, no entanto, ainda não superou a perda do seu progenitor. Através da conversa que proferi com o examinado percebi também que existe uma magoa muito forte para além de suspeitar que haja algo que o perturbe seriamente. Desta forma, deu a entender que tende a isolar-se do mundo preferindo está só. Por motivos de forte preocupação aguardo que a representante do Diogo marque uma nova consulta para acompanhamento familiar..." - USM(1)




(1) Unidade de Saúde Mental

5 comentários:

De Amor e de Terra disse...

Já há muito que cá não vinha e continuo gostando do que escreve.

Agradeço o seu interesse em decorar o meu pequeno poema.
Obrigada!
Abraço
Maria Mamede

Vlinder disse...

Tens uma força enorme, bem como uma grande pericia para domar as palavras!
Passa no meu se tiveres uns minutos
Beijo

Baila sem peso disse...

Há qualquer coisa neste texto
que prende...será a forma?
será a história?...enfim
será simplesmente porque sim...
uma imagem de pernas para o ar
muito do que se cheira hoje no caminhar!
Um perfeito conceito de interior...
Gostei, sim senhor! :)

Beijos

Nadia disse...

As pessoas tendem a fazer da humanidade um ser domado, um ser manejador, "manietado" pelas circunstancias da vida, tudo tem um tempo para a cura , e esse tempo deve ser dado, respeitado, acompanhado muitas vezes por nós mesmos, mas ao mesmo tempo por uma enorme vontade de viver e mudar o rumo ao que parece não ter saída...

Gostei do textos e principalmente do jogo de palavras*
continuação beijinhos

Daniel Silva (Lobinho) disse...

Passo para deixar os votos interiores de um Natal com Paz, independentemente da concepção que se tenha dele.

Com amizade, abraçoooooooooo

Lobinho