sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Nas Aulas Violas (V)

Fotografia de Ayshynek


Acordei na manha seguinte, penso que seja a manhã seguinte, pois, de pouco tenho memória, e, da mesma forma que teria vindo ao mundo estava deitado sobre o chão. O corpo, esse, senti-o gelado, mazelado por uma negra noite de trevas mas, tudo era uma imagem turba e agitada em torno de uma fragilidade assistida. Ao olhar-me desconheci-me, agora era mais robusto, dilatado, azulado, arroxeado, avermelhado, esbranquiçado e uns tons de ocre escuro.


Já raiava o dia aquando abrira os olhos, presenciava-se um sol esquálido projectando-se celestialmente sobre os objectos que incidia. Uma decoração fingida, de reflexos cristalinos, de pequenas rodelas luminosas que, aclareavam e abrilhantavam o espaço formando um ambiente de despedida após postura em necrópole. No ar, um leve perfume de flores pairava tranquilizante, uma requintada essência de brisa límpida.


Sobre os meus pés um manto minimalista cor de pérola adequando-se ao local. Retirei-o com alento, de seguida tentei levantar-me, esforço inútil que me obrigou a aceitar o convite a um bruto contacto com o chão. Desconhecendo-me o estado, insisti na nova aventura que era o equilíbrio. Paulatinamente, apoiado nos braços e num esforço mitológico, consegui quase erguer-me, ainda com alguma dificuldade para verticalizar a estrutura central do tronco. Meditei sobre o meu redor por breves segundos, e, tudo estava impecável, uma sensação de normalidade desafinada invadiu-me pelo inspirar e povoou-me. Ignorei, segui para o hall de entrada para me dirigir ao quarto onde provei o forte trago aromático a café com leite e a pão torrado. No quarto, vesti-me enquanto ainda acordava e pensava na turba memória que tinha, tudo estava no lugar, não havia nada que fizesse objecto de defesa da minha lembrança. Mas, apenas por entre um nevoeiro mental algumas imagens fruíam. Terá sido a minha imagética a misturar tudo?


Cheguei à cozinha, cumprimentei minha mãe, disse-lhe um bom dia com um sorriso ataráxico e recebi logo um questionário em forma de repreensão:


-“Onde estiveste? Onde foste de manhã tão cedo? Procurei-te em todo o lado não te vi… Já sabes que não gosto que saias sem me dizer nada! Eu sou tua mãe, e, preocupo-me muito contigo! Se querias ir a algum lado acordavas-me e pedias-me opinião! Que seja a última vez que fazes isto meu menino… Estamos entendidos?!

»Ah, ontem esteve cá o teu professor. Já falei com esse senhor também, vinha de mansinho e levou logo rebocada para a porta da rua! Quem pensa esse senhor que é, vamos resolver isto à minha maneira e não descanso enquanto esse senhor não estiver no lugar que merece…

»Mas ainda não me disseste onde estiveste! Hoje não vais às aulas e entretanto podes começar a explicar-te!”


-“Hum, estive no jardim, precisava de ar fresco, de arejar, foi isso…. Sim, foi isso….”





Texto de ayshynek