sábado, 8 de novembro de 2008

Nas Aulas Violas (IV)


fotografia de ayshynek





No dia seguinte, a minha mãe quis que ficasse por casa onde permaneci durante todo o restante dia. Ocupei o tempo ouvindo a versão de António Vargas da peça que tinha a apresentar no final do ano. Era uma obra lindíssima, parecia ouvir-se os pássaros cantar, o vento cruzar as folhagens de um campo alegre e verde na calma do som de um pequeno e calmo riacho viajar sobre o seu leito. As lágrimas floresciam lentamente sobre o rosto sem que eu percebesse bem o porquê visto agora estar em segurança, pelo menos pensava eu que sim. A minha mãe neste dia chegou um pouco mais cedo, não se sentia bem no trabalho e decidiu fechar a loja para aproveitar mais um pouco de tempo comigo. Tinha-me convidado para a sua companhia na loja mas preferi nem sair e ela não me desfez a vontade. Quando chegou a casa aconchegou-me no seu regaço sobre a minha cama onde adormeci sobre os seus dóceis carinhos.


Com um bruto bater de porta acordamos em sobressalto, pensamos ser uma vizinha pedindo um simples pé de salsa. Fazendo um movimento de quem se vai levantar minha mãe disse: "Deixa-te estar, eu vou lá." E assim foi, ela desceu enquanto eu pensava no tudo que é nada. Do abrir da porta só ouvi um "Ainda bem que veio." e durante o seguinte quarto de hora nada mais ouvi, não é que estivesse atento mas estava distraidamente penetrado no meu pensamento. Ao fim deste tempo comecei a estranhar tal silêncio e decidi dar voz à minha veia de curiosidade e saí do quarto para ver com quem curricava minha mãe à tanto tempo. Quase a chegar à escadaria senti um forte cheiro a álcool e mentol, parecia um cheiro a produto de limpeza de farmácia, estranhei por não ser habitual mas continuei o meu percurso. A meio da escadaria, num repentino movimento o meu corpo estremeceu, o meu olhar tinha-se prendido num corpo estendido no chão e em milésimos de segundo reconheci-o, era a minha mãe deitada como morta. O meu corpo tremia e a minha mente delirava na sua totalidade ao mesmo tempo que da sala se ouvia o som de pedras de gelo num copo. Num acto de defesa subi silenciosamente as escadas enquanto tentava perceber o que se passava.


Chegando ao quarto e seguindo os conselhos entronizados na mente pelas palavras constantes da minha mãe tranquei a porta do quarto, pendurei um casaco na maçaneta para tapar o buraco da fechadura e procurei o telefone. Entre gestos silenciosos percebi que tinha ficado o telefone na sala de estar, procurei pelo telemóvel que provavelmente estaria dentro da mala da minha mãe, o problema foi quando me deparei que estaria, a mala, pousada na cozinha. Naquele quarto pouco poderia fazer pois as janelas ficavam viradas para o jardim da casa, ainda tentei pela janela ver se algum vizinho estava pelo jardim para o tentar alertar mas por estas horas deveriam estar a jantar e já a noite caia por natureza.


As horas passavam eu ali de mãos atadas sem saber o que fazer. A minha mente encorajava me em ser forte para tentar chegar à cozinha, o meu nervosismo fazia tremer-me o corpo tornando-o fraco e inútil e o meu medo, esse, esse nem um movimento me permitia. Eu sabia que tinha que contactar alguém, mas não sabia se era um bandido ou um bando deles, o quarto podia estar a ser minado com gente à cuca ou então podia já estar a casa vazia e já terem levado tudo. O pior de tudo é que sabia que a minha mãe podia estar morta ou a morrer estendida no chão da sala e eu ali sem fazer nada. Foi neste aspecto onde ganhei força e decidi tentar chegar à cozinha.


Abri silenciosamente o quarto e com toda a cautela saí, ninguém estava no corredor dos quarto, um alívio que me soava como ter ganho a primeira etapa. Em pés de pantufas fui descendo as escadas sem fazer um ruído que fosse com um intuito de vitória na tentativa de agarrar o telemóvel. Fui descendo lentamente e nem olhava para nenhum lado, forma de eliminar o medo e de estar mais atento à missão que tinha em mãos. Tentativa falhada, já quase na útilma escada oiço chamar-me, fui visto. O meu comando de movimento não reagiu mais aos meus pedidos, a mente bloqueou e lentamente o corpo se escorreu pela parede até cair sentado na escada. Era ele, o professor! Aproximou-se, com a mão sobre o meu ombro disse: "Eu avisei-te Diogo!"


Não fui capaz de reagir, enquanto brutamente me puxada eu sentia-lhe um intenso cheiro a álcool juntamente com um outro cheiro parecido a incenso e charuto ao mesmo tempo que na minha mente soava o sentimento de culpa por ter contado o que se passava, senti-me inútil e incapaz. Olhei-o, tinha os olhos vermelhos, um aspecto pálido e agressivo. Quando cheguei à sala, a arrastão, as lágrimas floresceram como gotas cruas de sangue. Parecia dormir, imóvel, inútil, incapaz, inconsciente, imobilizada, na boca um pano branco manchado talvez um lenço, um pé preso a cada perna da cadeira, as mãos atadas sobre as costas, o tronco amarrado nas costas da cadeira, uma saia carmesim com muita roda e uma camisa muito ornamentada comprada numa loja em Viena. Penso que nunca mais vou esquecer esta imagem, que, meia turva se alojou no meu olhar fechado.

Empurrou-me contra o sofá, já não sentia nada. Não chorei, não me doeu, não me impressionei, tudo parecia não me magoar mais ou que, talvez, o meu sentimento tivesse esgotado e agora era mais um com calhau em lugar de coração, um insensível. Assoberbou um copo de Whisky e passou-mo para a mão e num tom atropelado dizendo: "Vamos brincar um pouco, agora é a minha vez de brincar!"