domingo, 9 de março de 2008

Nas Aulas Violas (I)


Fotografia de Ayshynek




Tudo começou em Viena quando passeava com minha mãe, tinha sensivelmente cinco anos de idade. Tínhamos abalado às compras, lembranças do Carnaval que passamos. Entre o cinza da pedra e o escarlate dos telhados compramos várias chinesices na companhia da Laidinha, esposa do casal que nos acompanhava sempre que viajávamos. Neste passeio a minha vida mudou, na rua havia visto três músicos tocando violoncelo, guitarra e acordeão deslumbrando o momento parei e senti que era aquilo que queria para mim, música! Assim foi, quando chegados a Portugal o meu pai tratou de me oferecer aulas de música.

O primeiro dia, algo difícil de esquecer, paredes brancas, senhoras de saia travada e laçarote ao pescoço, homens de fato e algumas idosas com xailes de organza e umas vestes menos comuns. Sandra Dupond e Sónia Soares, professoras de iniciação, integração e apoio musical, olhos grandes, lábios finos, a vida vincada no rosto assim se fazia corpo àqueles seres dóceis, meigos e afáveis.

Ao fim de dois anos fui obrigado a escolher um instrumento musical, eu estava decidido era Piano e assim foi. Professor Alberto Marques de trinta e nove anos era o meu orientador musical, muito meigo e simpático, disponível sempre que possível, dedicado e com um óptimo método de estudo. Eu tinha agora oito anos e estava completamente empenhado em trabalhar mais e mais não fosse a morte de meu pai, um acto alienígena matou-o de forma invisível, dura e intemporal. Neste período perdi o controle das minhas capacidades e estudos e as minhas notas desceram a níveis únicos.

Em casa o clima havia ficado intenso, minha mãe enlouqueceu, a família tinha-se afastado de mim, na escola sentia-me só, na rua sentia-me olhado, os amigos tinham-me rejeitado mas o professor apoiou-me o mais que pode, aproximou-se de mim acariciando a nuca, os ombros, as orelhas e o rosto. Ao nível que a nossa proximidade evoluiu falávamos um pouco sobre tudo e ele já me abraçava e acariciava as pernas. Contudo chegou o dia em que me acariciou os genitais, eu fiquei hirto sem saber o que fazer com algum medo mas mantive-me quieto. Com sua mão sobre a minha elevou-a até à sua zona pecaminosa e disse-me “A partir de hoje vamos fazer um jogo, sempre que errares vais mexer-lhe”, eu estremeci e fiquei nervoso. Nesse dia, chegado a casa, fechei-me no quarto e chorei. O mundo acabava de desabar por completo sobre mim, as cores eram negras, o sol escuro e a música sombria tudo parecia não fazer parte de uma vida simples e normal.




Texto de Ayhynek
Edição Musical de Ayshynek

9 comentários:

De Amor e de Terra disse...

Olá, boa noite!
Agradeço-te a visita e as palavras; quem sabe se um dia destes nos juntaremos para falar desse assunto!...
Quanto ao teu post,seja ou não ficção, impressionou-me, deveras!
Fica-me a vontade de saber, o que acontecimentos como este, podem causar na vida do(s)/da(s) intervenientes.

Bj

Maria Mamede

Maria Mamede

© Piedade Araújo Sol disse...

Olá

Não sei se será ficção ou não!

MAs, tambem o que aqui se faz é comentar o texto indepedentemente da ficçao ou da realidade.

Eu pessoalmente não gosto de comentar textos destes pois ali-os sempre à realidade, e essa realidade que muitos tentam camulflar existe mesmo. O teu texto está bem escrito retratando um dos "podres" da nossa sociedade a Pedofilia. Espero a continuação da evolução do texto, mas tudo me leva a crer que o menino vai se esmerar tanto, que a partir daquele dia nunca mais fará erros.

fica um beij

Ogi disse...

Olá boa tarde!

Primeiramente parabéns pelo texto!
Amigo, eu adoro-te como o irmão baixinho, cabeludo e de traços orientais que nunca tive! Tu sabes disso não sabes? Estou verdadeiramente feliz, por finalmente expressares-te não só através da música e da pintura, mas pela escrita também!
Mas vá, temos que admitir que estás perturbado! Que precisas de falar...

Ora vejamos:
Temas dos teus posts
Violações, Mortes, muitas mortes, sexo e agora pedofilia.

Vá... eu estudei psicologia, e isto é o retrato do teu passado e de desejos recalcados!

Ou então, todos aqueles anos de mistura de festa de aniversário, música infantil e risos de crianças, fritaram-te o cérebro de uma maneira impressionante! Preocupante, mas impressionante!

Sim, porque estás a transformar-te num escritorzinho de palmo e meio =')


Agora fora de brincadeiras... Parabéns!


Abraço daquele Sul Africano bué da nice que tu conheces ^^,

ayshynek disse...

Respondendo ao meu querido e amigo Sul Africano OGI, digo, não! Não são inflências do meu passado, não são experiencias na primeira pessoa e na realidade também não me sinto afectado! O que realmente faço é olhar em meu torno e ver as coisas, e, se muitos se calam e abafam os assuntos por escandalizarem eu mexo neles e falo abertamente. Não, a minha intenção não é chocar o mundo é mostrar lhe aquilo que ele tanto tem medo de ver. Como me conheces sabes bem que sou bem divertido, bem contente, com um passado infeliz é verdade mas são coisas que já não me pesam e nem tão pouco estão ligadas com os textos que escrevo, verdade é que também não quero fazer essas ligações!
De qualquer forma obrigado pela preocupação, ah e a minha unica ligação com este personagem é a inveja de eu nunca ter tido, verdadeiramente, aulas de musica. Ah, claro, com este professor nao queria mesmo. Mas com outro(a) invejo...

:)
Abraço meu Branco Negro irmão!



(RESPOSTA AO COMENTÀRIO DO OGI)

Outonodesconhecido disse...

Olá
Espero que o teu post seja ficção, porque nem consigo imaginar a dor, a confusão e angustia de uma criança face uma destas sitauções.
Boa noite e que a luz ilumine a tua vida, porque a ser verdade o facto descrito é como viver nas trevas.
Ah! Obrigada pela visita e pelas palavras lá no meu outono

Musicologo disse...

O conto tem duas partes distintas, mas tu só te apercebes da segunda quando já estás bem mergulhado nela, e depois dá um pouco vontade de voltar atrás para perceber como se acordou ali. Como é que de uma Viena e de uma infância com uma música tão jolie (a Madeleine está linda), passamos para uma sombra gélida.

O segundo tema está pesado e até começa bem, mas após um minuto fica um disparate completo, merece revisão. E não sei se será o mais adequado ao contexto. Exigia-se algo mais triste e soturno, mais sofrimento espalhado no tempo e não um tema aflitivo ou assutador imediatista.

E termino com uma breve: há sempre um nicho de realidade muito tua na fantasia que queres passar.

Maria Laura disse...

O texto impressiona pelo tema e pela realidade que nele passa. Pode não ter sido a tua mas é, infelizmente, a de muitas crianças. É sempre altura de reflectirmos sobre isso.

Graça Pires disse...

Excelente texto. Com esta estranha realidade a magoar-nos a alma.
Um abraço

APO (Bem-Trapilho) disse...

parabéns pelo tocar na ferida! seja ou não auto-biográfico é sempre de parabenizar quem não tem medo de tocar nestes assuntos mais caros à nossa sociedade.
gostei da música tb.
bjo