quinta-feira, 27 de março de 2008

Nas Aulas Violas (III)

Fotografia de Ayshynek




Entrando em casa o meu primeiro intuito foi tomar um banho, pois sentia o corpo repelido de mim mesmo. Retirei a roupa para um saco que, fechado, despejei no lixo. Entrei na banheira, abri a água que sem tempo para aquecer a conheci gélida, sobre mim friamente escorreu mas, no entanto, o sentimento foi de conforto e frescura. Senti a alma refrescada e o corpo ser liberto daquela camada nojenta tresandando de um odor forte a sexo indesejado. Durante o banho decidi encher a banheira, deitar-me e num ápice decidi acabar com tudo numa vez só. Mergulhei água dentro aguentando a respiração o mais que podia para chegar à asfixia. Durante esse curto período coisas várias se passaram na mente, os momentos felizes de sorrisos, os tristes de lágrimas e dor, o meu enterrado pai, a minha mãe! Nesse momento soou um austero “NÃO!” no eco do fim da vida, e, quase engolindo água abruptamente saí da banheira.


Chegada minha mãe a casa, não tive coragem de lhe contar o que se passava comigo. Atentamente, ela olhou-me de olho fito parecendo de tudo saber e interpelou-me “Diogo Duarte o que é esse vermelhão na cara e esse lábio rasgado? Nunca foste miúdo de brigas e agora andas à pancada? Onde foi isso, na escola? Com quem foi?” A minha resposta seria uma instintiva mentira omitindo os verdadeiros factos que me afectavam, mas somente consegui dizer “Mãe…” Neste momento as lágrimas atiraram-se sobre o rosto como suicídio de alguém perturbado num abismo, o fluxo nasal libertou-se e as palavras salivadas não saíram mais.


Num movimento suave, minha mãe aconchegou-se sobre seu peito. Admito ter sentido algum medo dela até mas logo me acalmei e me deixei ser confortado no seio maternal. No meio deste clima tenso contei-lhe algumas das verdades. Na verdade e mesmo até à sua morte eu nunca fui capaz de lhe contar tudo o que se tinha passado, acho que tive um pouco de vergonha e depois os anos passaram e nunca mais tive oportunidade de o fazer. Contudo que lhe contei ela ficou chocada e achando-se inútil, má educadora, má mãe por não me ter livrado de um sofrimento silencioso destes e disse-me: “ Filho a mãe está aqui para tudo, já devias ter contado para que a mãe te pudesse ajudar” A minha resposta foi repentina e simples “Desculpa mãe, prometo que…”, “Xiu…a mãe vai tratar de tudo. Vou ligar para a escola para falar com o professor”, rapidamente lhe pedi que o não fizesse mas ignorou o meu pedido e aquando se levantava para o telefonema ainda tentei impedi-la agarrando-lhe o braço mas foi inútil.


Para além da sua loucura tinha uma capacidade de interpretação e uma calma genial. Durante o telefonema manteve uma voz calma e serena com uma simpatia formidável, disse que desejava falar com o professor Alberto Marques com alguma urgência. Quando a questionaram sobre o motivo, prontamente respondeu que eu não andava muito bem e que quereria pedir ao professor, se possível, que reduzisse a matéria e talvez, também, a carga horária. No fim do telefonema usou a naturalidade perguntado à Conceição, a recepcionista, se estava tudo bem com ela e pedindo que não se esquecesse de falar ao professor. Agradeceu, despediu-se e pousou o telefone.

Texto de ayshynek
Edição Musical de Ayshynek

quinta-feira, 13 de março de 2008

Nas Aulas Violas (II)


Fotografia de Ayshynek

Primeira parte Aqui




O professor Alberto era casado com uma educadora de infância mais nova do que ele treze anos, uma senhora menina dócil e meiga. Nela via-se bem o verdadeiro gosto pelas crianças. Alberto, o professor, era também conhecido por ter um gosto especial por crianças, e, mentira não era pois gostava até de mais!


Nos dias seguintes fiz por estudar o mais que pude para não cair na boca do lobo durante as aulas, mas o nervosismo entre aquela pressão psicológica disparava e lá era eu caído nas garras do animal sendo obrigado a segurar naquele membro semi-flácido massajando-o até que se formasse hirto. Sobre este assunto nunca fui capaz de o contar a alguém que fosse e esta situação foi-se prolongando. Com o tempo fui-me costumando e ganhando frieza à situação, aprendi a relaxar, controlar e ao fim de dois anos de aulas de piano e tortura já consegui que não mais me enganasse no estudo. Eu tinha agora dez anos, já estava na terceira semana sem lhe tocar e assim continuou durante um mês e meio. Sentia-me por completo aliviado mas com receio que retornasse.


Certo dia, senti-me forte, corajoso e capaz, confrontei-o com a situação dizendo-lhe que não achava bonito o jogo que fazíamos e que o não queria voltar a jogar. Perguntou-me se tinha contado a alguém este nosso, forçado, segredo. A minha resposta foi verdadeira, disse que não mas que se o voltássemos a fazer eu contaria à minha mãe. Nesse momento a sua grande mão disparou soando por toda a sala e embatendo na minha face, nunca antes me tinha agredido. As lágrimas fluíram-me sobre o rosto de tão dolorosas que se assemelhavam a suores frios. Imperou-me que fosse silencioso, pois caso o não fosse seria bem pior para mim. Entre estas palavras agarrou-me na cabeça dizendo:
Agora vais perceber que eu gostava de ti e não merecia o que me fizeste. Vais pagar por isso!

Com as mãos sobre a nuca empurrou-me a cabeça contra o seu pénis mole, ali permaneci imóvel e quando por motivos da natureza me engasgava da violência recebia gentis bofetadas e empurrões para que não fizesse barulho. Num movimento brusco arrancou-me as calças e introduziu aquele deplorável membro em mim ao mesmo tempo que me impedia qualquer gemido.



A dor foi muito forte e não parava de aumentar, na garganta parecia ter um nó de tão apertada a situação em que estava compelido. Não fiz um único gemido, nem sequer me consegui mexer. Na sala só se ouvia a sua respiração ofegante de raiva, as lágrimas caírem-me do rosto sobre as teclas e algumas cordas do interior do piano a soarem com a brutalidade dos movimentos. Quando terminou largou-me sobre o chão mandando-me vestir e ameaçou-me sobre a possibilidade de contar a alguém o que quer que fosse. Levou-me até à recepção da escola, e como sempre, despediu-se de mim com um acenar de mão sobre os meus cabelos dizendo simpaticamente:

A aula foi boa, na quinta-feira quero isso perfeitinho. Estuda muito! Até Quinta!




Texto de Ayshynek

Edição Musical de Ayshynek

Partes em falta III, IV, V e VI

domingo, 9 de março de 2008

Nas Aulas Violas (I)


Fotografia de Ayshynek




Tudo começou em Viena quando passeava com minha mãe, tinha sensivelmente cinco anos de idade. Tínhamos abalado às compras, lembranças do Carnaval que passamos. Entre o cinza da pedra e o escarlate dos telhados compramos várias chinesices na companhia da Laidinha, esposa do casal que nos acompanhava sempre que viajávamos. Neste passeio a minha vida mudou, na rua havia visto três músicos tocando violoncelo, guitarra e acordeão deslumbrando o momento parei e senti que era aquilo que queria para mim, música! Assim foi, quando chegados a Portugal o meu pai tratou de me oferecer aulas de música.

O primeiro dia, algo difícil de esquecer, paredes brancas, senhoras de saia travada e laçarote ao pescoço, homens de fato e algumas idosas com xailes de organza e umas vestes menos comuns. Sandra Dupond e Sónia Soares, professoras de iniciação, integração e apoio musical, olhos grandes, lábios finos, a vida vincada no rosto assim se fazia corpo àqueles seres dóceis, meigos e afáveis.

Ao fim de dois anos fui obrigado a escolher um instrumento musical, eu estava decidido era Piano e assim foi. Professor Alberto Marques de trinta e nove anos era o meu orientador musical, muito meigo e simpático, disponível sempre que possível, dedicado e com um óptimo método de estudo. Eu tinha agora oito anos e estava completamente empenhado em trabalhar mais e mais não fosse a morte de meu pai, um acto alienígena matou-o de forma invisível, dura e intemporal. Neste período perdi o controle das minhas capacidades e estudos e as minhas notas desceram a níveis únicos.

Em casa o clima havia ficado intenso, minha mãe enlouqueceu, a família tinha-se afastado de mim, na escola sentia-me só, na rua sentia-me olhado, os amigos tinham-me rejeitado mas o professor apoiou-me o mais que pode, aproximou-se de mim acariciando a nuca, os ombros, as orelhas e o rosto. Ao nível que a nossa proximidade evoluiu falávamos um pouco sobre tudo e ele já me abraçava e acariciava as pernas. Contudo chegou o dia em que me acariciou os genitais, eu fiquei hirto sem saber o que fazer com algum medo mas mantive-me quieto. Com sua mão sobre a minha elevou-a até à sua zona pecaminosa e disse-me “A partir de hoje vamos fazer um jogo, sempre que errares vais mexer-lhe”, eu estremeci e fiquei nervoso. Nesse dia, chegado a casa, fechei-me no quarto e chorei. O mundo acabava de desabar por completo sobre mim, as cores eram negras, o sol escuro e a música sombria tudo parecia não fazer parte de uma vida simples e normal.




Texto de Ayhynek
Edição Musical de Ayshynek