sábado, 2 de fevereiro de 2008

Apólogo da menina rica


Fotografia de ayshynek

Era uma vez uma doce menina afável com uma aparência angelical e uma aura resplandecente. Tinha como nome Ana, Beatriz, Cristina, Deolinda, Eduarda, Francisca, Guilhermina, Helena, Ivone, Joana, Liliana, Maria, Natália, Otília, Patrícia, Quitéria, Rita, Sara, Teresa, Urânia, Valentina, Ximena, Zulmira. De estatura regular, olhos alvos, pele branca e cabelo castanho mel se traçava a sua personagem.

A menina era rodeada barregãs e estimados, vivia na ilusão dos sorrisos contrafeitos que geravam a criação de delírios incoerentes. Os seus dotes orientais tinham lhe dado o conhecimento que para bom prato é preciso um bom tempero e assim o fazia. Adulava as coisas à sua guisa e tornava-as distintas, a cada momento que lhes tocava dava-lhes um toque particular. Assim fazias as ser diferentes e especiais, mas, nem tudo pode durar sempre, toda a criança se cansa de ter o mesmo brinquedo e a menina assim o era. Cansava-se rapidamente de dar atenção ao mesmo corpo e ia lentamente deixando-o, trocando-o por outro.

A doce jovem cresceu e viu então que o seu número de concubinas e caros tinha dilatado acentuadamente, mas para além de preenchida sabia de um vazio interior que não conseguia explicar.

Entretanto muitos anos se passaram e a jovem ironicamente estava só, sofria de várias doenças mentais como pânico, depressão e esquizofrenia. Na cura das suas doenças encontrou-se no álcool e nas drogas, não teve vivalma que lhe puxasse pelo braço e a trouxesse ao mundo real. Morreu, Ana, Beatriz, Cristina, Deolinda, Eduarda, Francisca, Guilhermina, Helena, Ivone, Joana, Liliana, Maria, Natália, Otília, Patrícia, Quitéria, Rita, Sara, Teresa, Urânia, Valentina, Ximena, Zulmira, morreu da solidão e desgosto que viveu.

A sua alma tinha agora a certeza que o muito que tinha não era nada e que o pouco que teve deixou para trás na sua consciência perfeita, agora arrependia-se amargamente dos temperos em pratos diferentes. A sua vida não voltaria mais e o seu corpo já era alimento.

“As coisas que fiz e as coisas que pensei”



Texto de Ayshynek

Um comentário:

Adão disse...

Li em tempos, que mal nascemos, preparamos a nossa morte. Vivemos para morrer. E muitos de nós, não querendo mortes vazias, pensam que por criarem vários pratos, de diversos temperos, morrem mais felizes. Mais satisfeitos e preenchidos.
Esquecem-se porém, que uma morte, mais não é que outra vida. E morrer na solidão em pânico e depressão, não será com certeza o melhor.
O “muito que tinha não era nada e que o pouco que teve deixou para trás” demonstra que mais vale nascer para aprender a dar valor ao que definitivamente importa… do que pensar já no fim.