quarta-feira, 13 de fevereiro de 2008

As coisas que fiz, as coisas que penso!



Fotografia de ayshynek



Nasci em 1924 no mês de Fevereiro mas só em Março os meus pais puderam registar-me. Como sempre naquela época gostava-se de registar os filhos na cidade natal dos progenitores e os meus não fugiram à regra, preferindo esperar até terem melhores condições monetárias para me registar em Espinho, mas a minha cidade natal é Matosinhos. Altura de guerras e sofreguidão foi o ano em que nasci, os meus queridos pais fizeram de tudo para que eu tivesse um bom começo de vida e coitados dos infelizes que tiveram que tirar à boca para me dar a mim. Triste vida! O meu pai tinha sido despedido, era pintor e fazia coisas lindíssimas, conseguia até imitar madeira com as tintas, mas um dia o meu avô sentiu se mal e o meu pai queria deita-lo lá no trabalho, sim eles trabalhavam juntos, e o rapazito que tinha as chaves estava-se a armar em esperto com ele, o meu pai danado deu-lhe um tareia que ele ficou oito dias de cama, a mim pareceu-me mais manha dele mas o meu pai preferiu vir-se embora e ser despedido a ter de pagar os dias em que o rapazito esteve acamado.


Lembro-me de ser miúda e tinha os meus irmãos mais velhos e a minha irmã mais nova, saí tão fraquinha, repare-se que ela já andava eu gatinhava. Os meus pais não baixaram os braços e pediram ao meu Tio Francisco, um que tinha umas praias balneares, ali eu tomava uns banhos com os empregados dele. Assim comecei a melhorar o meu andar. Era tão bonito ver o fundo do mar, lembro-me de o ver tão azul com reflexos brancos. Ficou para sempre na minha memória!


Também não esqueço aquela vez em que ia brincar toda contente, devia ter cerca de sete anos, tanto corri que caí a um poço e foi uma sorte, se eu não tivesse gritado tanto seria ali o meu fim, mas Deus não quis assim. Houve uma vizinha da minha mãe que foi a correr lá a casa e disse-lhe 'Maria do Frade, anda lá ver que a tua menina caiu ao poço', coitadinha veio ela a correr para me socorrer.

Outra que nunca mais esquecerei foi a morte da minha mãe, tanta pena tenho eu dela, sofria tanto dos ossos. As camas naquela altura eram feitas género de palha e aquilo fazia covas, a minha querida mãe como se não conseguia mexer caso caísse ao buraco pediu-me para dormir com ela. Assim foi, desde essa altura passei a dormir sempre com ela, dormia com os joelhos encostados às costas dela para que ela não caísse na cova. Todas as manhãs a Tia Maria, uma prima da minha mãe, acordava-nos com o seu 'Bom dia!' pela pequena janelinha da porta. Um dia ela acordou-me com os seu bom dia, eu fui e abri-lhe a porta e disse:

-Bom dia Tia como vai?

-A tua mãe?

-Ainda dorme…

-Oh filha, não dorme não, dorme sim o sono eterno…

E era verdade, era a minha mãe que todas as manhãs respondia em primeiro lugar mas nesse dia não aconteceu e a minha tia percebeu logo o que se passava. Realmente minha mãe tinha-me pedido para falar com a minha irmã Alice durante a madrugada, porque queria falar com ela com urgência coisa que nunca tinha acontecido, mas a minha irmã dormia como uma pedra e a minha mãe disse-me “Deixa lá filha, deixa lá…dorme!”. O engraçado é que ela estava quente quando eu saí da cama, talvez tivesse acabado de morrer… Nunca mais esquecerei!



Texto de Ayshynek
Musica Editada por Ayshynek

5 comentários:

APO (Bem-Trapilho) disse...

vejo que continuamos "down" por aqui! mas de uma "dark beauty" impressionante!

e em resposta ao teu comentario lá no Bom Feeling, sim tens razão! eu propria estou a ficar farta dos xadrezes de que tanto gosto. Mas foram encomendas e eram expressamente para serem iguais ao primeiro padrao. vá lá, lá consegui que me deixassem usar outros ligeiramente diferentes! :)

Musicologo disse...

Deliciosamente perturbador o ambiente criado quer pela história quer pela ambiência sonora. Estou a gostar da aventura que é visitar este cantinho*

Ogi disse...

E tu a dar numa de mortes!
Mas adorei a história e o clima que criaste! Ao ler o texto, revejo as histórias que a minha avó me conta, de como o 'tempo dela' era triste, e muito mais difícil do q agora!

Gostei irmão, gostei!


Aquele abraço oh baixinho*

Outonodesconhecido disse...

Poisé são coiss que não esquecemos. Ainda bem.
Boa semana

Klatuu o embuçado disse...

Gostei deste texto.