quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

Linguagem Humana - 001


Fotografia de ayshynek


Vindos de famílias espanholas Rui e Sofia chegaram a Portugal. De Marbella, cidade natal de ambos, trouxeram as malas, recordações e o nó do casamento que recentemente acontecera. Viviam felizes e ainda naquele momento do 'mar de rosas'. Rui tinha apenas vinte e quatro anos e já estava formado em História de Arte e Sofia mais nova um pouco com quase dezanove primaveras, que as completaria no dia quinze do próximo mês, era autodidacta na literatura.


Alentejo foi zona escolhida para morar, queriam um sitio calmo com montes, planícies, natureza e gente pacata e nada melhor que a pasmaceira alentejana. Como vinham de famílias ricas compraram uma quinta com cerca de quinze hectares muito perto de uma vila com cerca de cinquenta habitantes. Desde os grandes portões até chegar à casa percorria-se quase um quilometro de caminho estreito tapado com vinhas e outras plantas ornamentais, à entrada da casa duas enormes escadarias, muitas janelas tapadas e gastas pelo tempo e a casa que outrora fora caiada agora era cinza. À volta havia jardins e espelhos de água, caminhos e floreiras, campos e vinhas, arrebiques! Sabiam, por ouvir dizer, que aquela casa pertencera a uns senhores conhecidos por todos pelos Doutores, um casal com cerca de quarenta anos que vivia fechado na casa e que muito pouco se sabia sobre eles, falavam as más línguas das beatas da igreja que a Doutora tinha o ventre seco e que o sangue lhe corria podre nos períodos de menstruação, dados que nunca foram confirmados.

Passava já um mês que o jovem casal ali morava, já tinham caiado a casa, arranjado as janelas e decorado o interior bem ao gosto espanhol. Contrataram trolhas, jardineiros, carpinteiros e todos os demais necessários. A casa parecia um sonho mas havia algo que perturbava Sofia, talvez a gravides recente ou algo que lhe parecia estranho naquela casa. Ela não sabia dizer se era a adaptação à nova morada, se a saudade dos familiares, se a vida de casada, se um infinito de coisas mas aquela porta que se encontrava no rés do chão e quem ninguém conseguia abrir fazia-lhe borbulhar as entranhas. Rui nunca se pronunciara sobre isso, para ele era só uma salinha vazia que tinha uma porta velha e dura de abrir. Sofia, durante a noite, dizia ouvir gemidos e movimentos mas Rui tranquilizava-a dizendo que era Diogo, o filho que iria nascer que já estava a gesticular palavras na barriga da mãe.

Já estava quase no final de tempo e a pequena criança já dava sinais de querer saltar cá para fora e abrir os olhos ao mundo. O casal para ajudar nas lidas da casa contratara casualmente Alberta e as suas duas filhas. Alberta era uma mulher pobre que à uns anos lhe tinha morrido o marido na gravides da sua segunda filha, já tinha trabalhado para os Doutores mas os senhores foram se e até virem, novamente, para esta casa viviam do campo e do trabalho na lavoura. Sofia e a governanta Alberta criaram grande empatia mas sempre que, em conversa de amigas, a jovem lhe fazia perguntas sobre os anteriores donos da casa Alberta optava pelo silencio encolhendo os ombros.

Esgotou-se o tempo e Rui não estava, tinha ido a uma qualquer exposição em Lisboa sobre a época Barroca. Sofia não podia conduzir naquele estado e também nenhuma das analfabetas que ali trabalhava sabia como o fazer. Alberta fora parteira umas vezes naqueles casos como este de aflição e pouco remédio. Com a ajuda das filhas, muitos vapores, panos de água quente e muitos gritos que faziam desviar a rota do gado, nasceu Diogo. Nesse dia Rui não voltou de Lisboa mas fez-se festa, houve peru e leitão assado, batatas e arroz, pudins e bolos, Alberta caprichou e para alegrar a menina, como ela lhe chamava, convidou quase toda a gente da Vila para comemorar o acontecimento. Somente apareceram um casal de meia idade e três idosas com um ar sujo vestidas de negro. Bebeu-se e cantou-se, os empregados da casa foram quem mais festejou o nascimento da criança. As frases mais ouvidas eram:

-"Um brinde ao Diogo!"- dizia alguém.
-"Viva!"- diziam todos.



4 comentários:

Musicologo disse...

Até agora o suspense mantém-se em cima. Apenas uma sugestão de apresentação: faz espaços entre os parágrafos. Ler o texto corrido todo cansa os olhos e desmotiva. Se optares por pores espaços aqui e ali, torna-se mais leve.

Aguardo o desenrolar... *

ayshynek disse...

obrigado musicologo vou seguir a tua sugestão, concordo plenamente com o que disses-te...

Sim preferi deixar em suspense, uma forma de cativar uma nova visita ao blog para ver a continuação da história, se não estou em erro será completa por mais duas ou três edições até ao fecho da história...

Mais uma vez obrigado

Foozie Woozie disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Ogi disse...

Cá estou eu novamente!
Consegui arranjar um tempinho para poder vir cá ler o que esse cabecinha (que por vezes ostenta uma trança feita dessa tua linda juba) andou pr'aqui a escrever ^^,
Até agora, mts parabéns!
Estou a gostar da história, principalmente dos toques pessoais que deste às personagens ^^,

Keep up, fico à espera de desenvolvimentos =P*

(erro de conta xD)