domingo, 11 de julho de 2010

Nas Aulas Violas (VI)


Fotografia de Ayshynek


Foi uma tremenda confusão. Passei o dia inteiro a insistir no mesmo tema, parecia tudo tão real mas, ou era apenas um pesadelo ou tudo sem explicação. As dores, as mazelas, os cheiros, os aromas, os paladares, as imagens, as memórias, tudo tão vivo como ao mesmo tempo tão morto e sem cadáver. Durante o primeiro, o segundo, o terceiro, o quarto, o quinto, um ínfimo de dias em que não parei de pensar no mesmo e, durante este tempo os feitos reduziram-se à prática do pensar repensar o mesmo assunto. Nem a música, nem a rádio, nem mesmo as minhas engenhocas fizeram as minhas delícias absolvendo-me de tal preocupação.


Entretanto passaram três semanas, para casa ligavam professores, escolas, amigos, colegas e até outros pais. Parecia o telefone uma total novidade mas isso não seria o mais importante. Hoje era dia da primeira consulta. Por certo, contorci-me por ter de lá ir mas por fim de contas não foi tempo perdido. Quando entrei no consultório vi uma senhora com alguma idade, talvez uns sessenta ou mais. Tinha um meandro cabelo grisalho e sujo, uns óculos gigantes de lentes grossas e uma bata branca. Com os olhos esbugalhados levantou-se e pediu que me sentasse e ao aproximar-me vi quanto era feia dispondo de um ar prepotente. Um rosto descaído nas bochechas seguras pelas maçãs desproporcionalmente salientes, olhos afastados e muito convexos rodeados por pálpebras côncavas,um nariz pontiagudo e uma boca em forma de arco de cruzaria em ogiva.


Pediu que me sentasse numa pequena mesa com umas folhas e uns lápis para fazer desenho,s um qualquer serviria. Para além de achar que havia entrado num filme de terror, agora achava-me perante uma louca. No entanto, comecei a fazer o pedido desenho. Um papagaio de penas multicolores sobre um ramo de uma qualquer árvore, apenas um desenho esboçado mas feito com todo o rigor e todo o regozijo das hipotéticas capacidades. Em seguida pediu-me que lho explicasse, disse lhe o seguinte:
-"...é um papagaio que está assim a admirar o que o rodeia!"
-"Mas ele está sozinho porquê?" - perguntou-me ela
-"Bem, o pai foi embora a mãe foi buscar comida para os irmãos e ele está a ouvir os sons do bosque!" - respondi prontamente à pergunta absurda.
-"E não tem ninguém para lhe fazer companhia? Um amigo ou algum dos irmãos?"
-"Não, ele já é crescido e não precisa da companhia de ninguém está bem sozinho e para ouvir os sons do bosque os outros fazem barulho...!"

-"Já estava a ficar farto de tantas perguntas mas afinal qual era o problema daquela mulher?! Não percebia ela que me pediu um desenho e que se eu desenhasse a família toda precisaria de uma parede e um dia?! Oh mãe ela era assustadora, muito feia, parecia saída de um filme..." - disse eu mal saí do consultório.


Passaram duas semanas após a consulta naquele antro de doidos, tudo voltava ao normal mas já passara um mês que não tinha uma aula de piano. Dizia sempre que não queria voltar lá mas no fundo tinha umas saudades imensas e, sem dúvida, era essa a minha maior repulsa. Eu gostava da escola, amava poder estudar música, adorava ainda mais o piano mas, ao mesmo tempo não queria estar lá por causa do professor. Já havia passado um pouco mais de um mês e eu já morria de saudades atirando me a um canto escondido para chorar por querer e não querer voltar à escola de música. Tudo me puxava para lá e tudo me puxava para cá, custava-me tanto querer ir e não poder e querer ir e não querer, uma revolta imensa que me fazia o desejo de rebentar por dentro, tal como se pudesse por a mão por entre o peito e arrancar a dor que lá sentia.


Estava a meio da semana e eu queria que tudo voltasse a ser como era, por isso quis vir sozinho para casa. Mal saí da escola despedi-me dos meus poucos amigos porque queria chegar cedo a casa e então não viria pelo caminho com eles. Saí com um pouco de medo mas tentei entreter a minha cabeça com outras coisas, os deveres, os trabalhos, os testes e por muitas outras coisas absurdas. A meio do caminho dei por mim num passo quase de corrida, com as costas muito direitas suportadas por uma força abdominal e com os braços esticados pelos músculos contraídos a gingar da frente para trás ao mesmo tempo que o meu olhar parecia um radar. Estava com medo de tudo e ao mesmo tempo do nada e, assim, segui até casa numa meia aflição ou mesmo num ataque de pânico. Quando cheguei a casa a minha mãe ainda não tinha chegado e havia correio, fechei rapidamente a porta enquanto verificava se estava em segurança e abri a carta.

"... o Diogo é uma criança muito madura para a idade, no entanto, ainda não superou a perda do seu progenitor. Através da conversa que proferi com o examinado percebi também que existe uma magoa muito forte para além de suspeitar que haja algo que o perturbe seriamente. Desta forma, deu a entender que tende a isolar-se do mundo preferindo está só. Por motivos de forte preocupação aguardo que a representante do Diogo marque uma nova consulta para acompanhamento familiar..." - USM(1)




(1) Unidade de Saúde Mental

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Nas Aulas Violas (V)

Fotografia de Ayshynek


Acordei na manha seguinte, penso que seja a manhã seguinte, pois, de pouco tenho memória, e, da mesma forma que teria vindo ao mundo estava deitado sobre o chão. O corpo, esse, senti-o gelado, mazelado por uma negra noite de trevas mas, tudo era uma imagem turba e agitada em torno de uma fragilidade assistida. Ao olhar-me desconheci-me, agora era mais robusto, dilatado, azulado, arroxeado, avermelhado, esbranquiçado e uns tons de ocre escuro.


Já raiava o dia aquando abrira os olhos, presenciava-se um sol esquálido projectando-se celestialmente sobre os objectos que incidia. Uma decoração fingida, de reflexos cristalinos, de pequenas rodelas luminosas que, aclareavam e abrilhantavam o espaço formando um ambiente de despedida após postura em necrópole. No ar, um leve perfume de flores pairava tranquilizante, uma requintada essência de brisa límpida.


Sobre os meus pés um manto minimalista cor de pérola adequando-se ao local. Retirei-o com alento, de seguida tentei levantar-me, esforço inútil que me obrigou a aceitar o convite a um bruto contacto com o chão. Desconhecendo-me o estado, insisti na nova aventura que era o equilíbrio. Paulatinamente, apoiado nos braços e num esforço mitológico, consegui quase erguer-me, ainda com alguma dificuldade para verticalizar a estrutura central do tronco. Meditei sobre o meu redor por breves segundos, e, tudo estava impecável, uma sensação de normalidade desafinada invadiu-me pelo inspirar e povoou-me. Ignorei, segui para o hall de entrada para me dirigir ao quarto onde provei o forte trago aromático a café com leite e a pão torrado. No quarto, vesti-me enquanto ainda acordava e pensava na turba memória que tinha, tudo estava no lugar, não havia nada que fizesse objecto de defesa da minha lembrança. Mas, apenas por entre um nevoeiro mental algumas imagens fruíam. Terá sido a minha imagética a misturar tudo?


Cheguei à cozinha, cumprimentei minha mãe, disse-lhe um bom dia com um sorriso ataráxico e recebi logo um questionário em forma de repreensão:


-“Onde estiveste? Onde foste de manhã tão cedo? Procurei-te em todo o lado não te vi… Já sabes que não gosto que saias sem me dizer nada! Eu sou tua mãe, e, preocupo-me muito contigo! Se querias ir a algum lado acordavas-me e pedias-me opinião! Que seja a última vez que fazes isto meu menino… Estamos entendidos?!

»Ah, ontem esteve cá o teu professor. Já falei com esse senhor também, vinha de mansinho e levou logo rebocada para a porta da rua! Quem pensa esse senhor que é, vamos resolver isto à minha maneira e não descanso enquanto esse senhor não estiver no lugar que merece…

»Mas ainda não me disseste onde estiveste! Hoje não vais às aulas e entretanto podes começar a explicar-te!”


-“Hum, estive no jardim, precisava de ar fresco, de arejar, foi isso…. Sim, foi isso….”





Texto de ayshynek

terça-feira, 21 de julho de 2009

Por vezes....



Alegre e sorridente, uma piada sempre pronta! Nem sempre é o que parece. A vida, essa, ocupa o destino e o atribulado pensamento perturbado. À melodia soul dos 80's a caminhada diária da vida frenética. Oh quão frenética és, se o não fosses... Mas, por ti corro toda a hora e sem nunca uma recompensa ou és tu? Dás-me o conhecimento de nada saber, és invejosa mas, quem és tu afinal? Por vezes na caminha por entre multidões, gente negra, branca, mestiça, de todas as cores. Por entre esta gente, por entre esta gente vivo acompanhado da solidão da tua omnipresença. Porque és injusta? Não posso eu deixar-te por momentos? Sufocas me a alma com cenários fúteis e preenches-me de nada! Quem és tu? Comandas-me? Será que me podes fazer o favor de pelo menos me fazeres sentir bem? Não posso ser sempre eu a sorrir e a fazer sorrir, também mereço sorrir! Deixa-me, larga-me pois, não sei quem sou! Mas se não sei quem sou então, então a culpa é minha. Desculpa, mas não quero sentir solidão! Afinal ainda sou criança! Ser feliz?!

Cartas ao Pai Natal, bonecas de pano, carrinhos, comboios, garagens, até Barbie...! Tão pouca coisa de tão pouco valor e importância nos fez feliz... E agora? Será a falta da carta ao Pai Natal?! Diz-me! Quem és?! Sou eu?! Não me respondas, já percebi a tua ingratidão! Mas agora cala-te, não te quero ouvir mais o silêncio pois, se somos então eu fico com a tua parte! A injustiça é mutua! O som do teu silêncio perturbador terminará aquando do meu! E quando eu morrer? Ficarás sozinha e não ousará alguém de evitar que estejas suspensa... Como é bom sonhar!

sábado, 8 de novembro de 2008

Nas Aulas Violas (IV)


fotografia de ayshynek





No dia seguinte, a minha mãe quis que ficasse por casa onde permaneci durante todo o restante dia. Ocupei o tempo ouvindo a versão de António Vargas da peça que tinha a apresentar no final do ano. Era uma obra lindíssima, parecia ouvir-se os pássaros cantar, o vento cruzar as folhagens de um campo alegre e verde na calma do som de um pequeno e calmo riacho viajar sobre o seu leito. As lágrimas floresciam lentamente sobre o rosto sem que eu percebesse bem o porquê visto agora estar em segurança, pelo menos pensava eu que sim. A minha mãe neste dia chegou um pouco mais cedo, não se sentia bem no trabalho e decidiu fechar a loja para aproveitar mais um pouco de tempo comigo. Tinha-me convidado para a sua companhia na loja mas preferi nem sair e ela não me desfez a vontade. Quando chegou a casa aconchegou-me no seu regaço sobre a minha cama onde adormeci sobre os seus dóceis carinhos.


Com um bruto bater de porta acordamos em sobressalto, pensamos ser uma vizinha pedindo um simples pé de salsa. Fazendo um movimento de quem se vai levantar minha mãe disse: "Deixa-te estar, eu vou lá." E assim foi, ela desceu enquanto eu pensava no tudo que é nada. Do abrir da porta só ouvi um "Ainda bem que veio." e durante o seguinte quarto de hora nada mais ouvi, não é que estivesse atento mas estava distraidamente penetrado no meu pensamento. Ao fim deste tempo comecei a estranhar tal silêncio e decidi dar voz à minha veia de curiosidade e saí do quarto para ver com quem curricava minha mãe à tanto tempo. Quase a chegar à escadaria senti um forte cheiro a álcool e mentol, parecia um cheiro a produto de limpeza de farmácia, estranhei por não ser habitual mas continuei o meu percurso. A meio da escadaria, num repentino movimento o meu corpo estremeceu, o meu olhar tinha-se prendido num corpo estendido no chão e em milésimos de segundo reconheci-o, era a minha mãe deitada como morta. O meu corpo tremia e a minha mente delirava na sua totalidade ao mesmo tempo que da sala se ouvia o som de pedras de gelo num copo. Num acto de defesa subi silenciosamente as escadas enquanto tentava perceber o que se passava.


Chegando ao quarto e seguindo os conselhos entronizados na mente pelas palavras constantes da minha mãe tranquei a porta do quarto, pendurei um casaco na maçaneta para tapar o buraco da fechadura e procurei o telefone. Entre gestos silenciosos percebi que tinha ficado o telefone na sala de estar, procurei pelo telemóvel que provavelmente estaria dentro da mala da minha mãe, o problema foi quando me deparei que estaria, a mala, pousada na cozinha. Naquele quarto pouco poderia fazer pois as janelas ficavam viradas para o jardim da casa, ainda tentei pela janela ver se algum vizinho estava pelo jardim para o tentar alertar mas por estas horas deveriam estar a jantar e já a noite caia por natureza.


As horas passavam eu ali de mãos atadas sem saber o que fazer. A minha mente encorajava me em ser forte para tentar chegar à cozinha, o meu nervosismo fazia tremer-me o corpo tornando-o fraco e inútil e o meu medo, esse, esse nem um movimento me permitia. Eu sabia que tinha que contactar alguém, mas não sabia se era um bandido ou um bando deles, o quarto podia estar a ser minado com gente à cuca ou então podia já estar a casa vazia e já terem levado tudo. O pior de tudo é que sabia que a minha mãe podia estar morta ou a morrer estendida no chão da sala e eu ali sem fazer nada. Foi neste aspecto onde ganhei força e decidi tentar chegar à cozinha.


Abri silenciosamente o quarto e com toda a cautela saí, ninguém estava no corredor dos quarto, um alívio que me soava como ter ganho a primeira etapa. Em pés de pantufas fui descendo as escadas sem fazer um ruído que fosse com um intuito de vitória na tentativa de agarrar o telemóvel. Fui descendo lentamente e nem olhava para nenhum lado, forma de eliminar o medo e de estar mais atento à missão que tinha em mãos. Tentativa falhada, já quase na útilma escada oiço chamar-me, fui visto. O meu comando de movimento não reagiu mais aos meus pedidos, a mente bloqueou e lentamente o corpo se escorreu pela parede até cair sentado na escada. Era ele, o professor! Aproximou-se, com a mão sobre o meu ombro disse: "Eu avisei-te Diogo!"


Não fui capaz de reagir, enquanto brutamente me puxada eu sentia-lhe um intenso cheiro a álcool juntamente com um outro cheiro parecido a incenso e charuto ao mesmo tempo que na minha mente soava o sentimento de culpa por ter contado o que se passava, senti-me inútil e incapaz. Olhei-o, tinha os olhos vermelhos, um aspecto pálido e agressivo. Quando cheguei à sala, a arrastão, as lágrimas floresceram como gotas cruas de sangue. Parecia dormir, imóvel, inútil, incapaz, inconsciente, imobilizada, na boca um pano branco manchado talvez um lenço, um pé preso a cada perna da cadeira, as mãos atadas sobre as costas, o tronco amarrado nas costas da cadeira, uma saia carmesim com muita roda e uma camisa muito ornamentada comprada numa loja em Viena. Penso que nunca mais vou esquecer esta imagem, que, meia turva se alojou no meu olhar fechado.

Empurrou-me contra o sofá, já não sentia nada. Não chorei, não me doeu, não me impressionei, tudo parecia não me magoar mais ou que, talvez, o meu sentimento tivesse esgotado e agora era mais um com calhau em lugar de coração, um insensível. Assoberbou um copo de Whisky e passou-mo para a mão e num tom atropelado dizendo: "Vamos brincar um pouco, agora é a minha vez de brincar!"

quinta-feira, 27 de março de 2008

Nas Aulas Violas (III)

Fotografia de Ayshynek




Entrando em casa o meu primeiro intuito foi tomar um banho, pois sentia o corpo repelido de mim mesmo. Retirei a roupa para um saco que, fechado, despejei no lixo. Entrei na banheira, abri a água que sem tempo para aquecer a conheci gélida, sobre mim friamente escorreu mas, no entanto, o sentimento foi de conforto e frescura. Senti a alma refrescada e o corpo ser liberto daquela camada nojenta tresandando de um odor forte a sexo indesejado. Durante o banho decidi encher a banheira, deitar-me e num ápice decidi acabar com tudo numa vez só. Mergulhei água dentro aguentando a respiração o mais que podia para chegar à asfixia. Durante esse curto período coisas várias se passaram na mente, os momentos felizes de sorrisos, os tristes de lágrimas e dor, o meu enterrado pai, a minha mãe! Nesse momento soou um austero “NÃO!” no eco do fim da vida, e, quase engolindo água abruptamente saí da banheira.


Chegada minha mãe a casa, não tive coragem de lhe contar o que se passava comigo. Atentamente, ela olhou-me de olho fito parecendo de tudo saber e interpelou-me “Diogo Duarte o que é esse vermelhão na cara e esse lábio rasgado? Nunca foste miúdo de brigas e agora andas à pancada? Onde foi isso, na escola? Com quem foi?” A minha resposta seria uma instintiva mentira omitindo os verdadeiros factos que me afectavam, mas somente consegui dizer “Mãe…” Neste momento as lágrimas atiraram-se sobre o rosto como suicídio de alguém perturbado num abismo, o fluxo nasal libertou-se e as palavras salivadas não saíram mais.


Num movimento suave, minha mãe aconchegou-se sobre seu peito. Admito ter sentido algum medo dela até mas logo me acalmei e me deixei ser confortado no seio maternal. No meio deste clima tenso contei-lhe algumas das verdades. Na verdade e mesmo até à sua morte eu nunca fui capaz de lhe contar tudo o que se tinha passado, acho que tive um pouco de vergonha e depois os anos passaram e nunca mais tive oportunidade de o fazer. Contudo que lhe contei ela ficou chocada e achando-se inútil, má educadora, má mãe por não me ter livrado de um sofrimento silencioso destes e disse-me: “ Filho a mãe está aqui para tudo, já devias ter contado para que a mãe te pudesse ajudar” A minha resposta foi repentina e simples “Desculpa mãe, prometo que…”, “Xiu…a mãe vai tratar de tudo. Vou ligar para a escola para falar com o professor”, rapidamente lhe pedi que o não fizesse mas ignorou o meu pedido e aquando se levantava para o telefonema ainda tentei impedi-la agarrando-lhe o braço mas foi inútil.


Para além da sua loucura tinha uma capacidade de interpretação e uma calma genial. Durante o telefonema manteve uma voz calma e serena com uma simpatia formidável, disse que desejava falar com o professor Alberto Marques com alguma urgência. Quando a questionaram sobre o motivo, prontamente respondeu que eu não andava muito bem e que quereria pedir ao professor, se possível, que reduzisse a matéria e talvez, também, a carga horária. No fim do telefonema usou a naturalidade perguntado à Conceição, a recepcionista, se estava tudo bem com ela e pedindo que não se esquecesse de falar ao professor. Agradeceu, despediu-se e pousou o telefone.

Texto de ayshynek
Edição Musical de Ayshynek

quinta-feira, 13 de março de 2008

Nas Aulas Violas (II)


Fotografia de Ayshynek

Primeira parte Aqui




O professor Alberto era casado com uma educadora de infância mais nova do que ele treze anos, uma senhora menina dócil e meiga. Nela via-se bem o verdadeiro gosto pelas crianças. Alberto, o professor, era também conhecido por ter um gosto especial por crianças, e, mentira não era pois gostava até de mais!


Nos dias seguintes fiz por estudar o mais que pude para não cair na boca do lobo durante as aulas, mas o nervosismo entre aquela pressão psicológica disparava e lá era eu caído nas garras do animal sendo obrigado a segurar naquele membro semi-flácido massajando-o até que se formasse hirto. Sobre este assunto nunca fui capaz de o contar a alguém que fosse e esta situação foi-se prolongando. Com o tempo fui-me costumando e ganhando frieza à situação, aprendi a relaxar, controlar e ao fim de dois anos de aulas de piano e tortura já consegui que não mais me enganasse no estudo. Eu tinha agora dez anos, já estava na terceira semana sem lhe tocar e assim continuou durante um mês e meio. Sentia-me por completo aliviado mas com receio que retornasse.


Certo dia, senti-me forte, corajoso e capaz, confrontei-o com a situação dizendo-lhe que não achava bonito o jogo que fazíamos e que o não queria voltar a jogar. Perguntou-me se tinha contado a alguém este nosso, forçado, segredo. A minha resposta foi verdadeira, disse que não mas que se o voltássemos a fazer eu contaria à minha mãe. Nesse momento a sua grande mão disparou soando por toda a sala e embatendo na minha face, nunca antes me tinha agredido. As lágrimas fluíram-me sobre o rosto de tão dolorosas que se assemelhavam a suores frios. Imperou-me que fosse silencioso, pois caso o não fosse seria bem pior para mim. Entre estas palavras agarrou-me na cabeça dizendo:
Agora vais perceber que eu gostava de ti e não merecia o que me fizeste. Vais pagar por isso!

Com as mãos sobre a nuca empurrou-me a cabeça contra o seu pénis mole, ali permaneci imóvel e quando por motivos da natureza me engasgava da violência recebia gentis bofetadas e empurrões para que não fizesse barulho. Num movimento brusco arrancou-me as calças e introduziu aquele deplorável membro em mim ao mesmo tempo que me impedia qualquer gemido.



A dor foi muito forte e não parava de aumentar, na garganta parecia ter um nó de tão apertada a situação em que estava compelido. Não fiz um único gemido, nem sequer me consegui mexer. Na sala só se ouvia a sua respiração ofegante de raiva, as lágrimas caírem-me do rosto sobre as teclas e algumas cordas do interior do piano a soarem com a brutalidade dos movimentos. Quando terminou largou-me sobre o chão mandando-me vestir e ameaçou-me sobre a possibilidade de contar a alguém o que quer que fosse. Levou-me até à recepção da escola, e como sempre, despediu-se de mim com um acenar de mão sobre os meus cabelos dizendo simpaticamente:

A aula foi boa, na quinta-feira quero isso perfeitinho. Estuda muito! Até Quinta!




Texto de Ayshynek

Edição Musical de Ayshynek

Partes em falta III, IV, V e VI

domingo, 9 de março de 2008

Nas Aulas Violas (I)


Fotografia de Ayshynek




Tudo começou em Viena quando passeava com minha mãe, tinha sensivelmente cinco anos de idade. Tínhamos abalado às compras, lembranças do Carnaval que passamos. Entre o cinza da pedra e o escarlate dos telhados compramos várias chinesices na companhia da Laidinha, esposa do casal que nos acompanhava sempre que viajávamos. Neste passeio a minha vida mudou, na rua havia visto três músicos tocando violoncelo, guitarra e acordeão deslumbrando o momento parei e senti que era aquilo que queria para mim, música! Assim foi, quando chegados a Portugal o meu pai tratou de me oferecer aulas de música.

O primeiro dia, algo difícil de esquecer, paredes brancas, senhoras de saia travada e laçarote ao pescoço, homens de fato e algumas idosas com xailes de organza e umas vestes menos comuns. Sandra Dupond e Sónia Soares, professoras de iniciação, integração e apoio musical, olhos grandes, lábios finos, a vida vincada no rosto assim se fazia corpo àqueles seres dóceis, meigos e afáveis.

Ao fim de dois anos fui obrigado a escolher um instrumento musical, eu estava decidido era Piano e assim foi. Professor Alberto Marques de trinta e nove anos era o meu orientador musical, muito meigo e simpático, disponível sempre que possível, dedicado e com um óptimo método de estudo. Eu tinha agora oito anos e estava completamente empenhado em trabalhar mais e mais não fosse a morte de meu pai, um acto alienígena matou-o de forma invisível, dura e intemporal. Neste período perdi o controle das minhas capacidades e estudos e as minhas notas desceram a níveis únicos.

Em casa o clima havia ficado intenso, minha mãe enlouqueceu, a família tinha-se afastado de mim, na escola sentia-me só, na rua sentia-me olhado, os amigos tinham-me rejeitado mas o professor apoiou-me o mais que pode, aproximou-se de mim acariciando a nuca, os ombros, as orelhas e o rosto. Ao nível que a nossa proximidade evoluiu falávamos um pouco sobre tudo e ele já me abraçava e acariciava as pernas. Contudo chegou o dia em que me acariciou os genitais, eu fiquei hirto sem saber o que fazer com algum medo mas mantive-me quieto. Com sua mão sobre a minha elevou-a até à sua zona pecaminosa e disse-me “A partir de hoje vamos fazer um jogo, sempre que errares vais mexer-lhe”, eu estremeci e fiquei nervoso. Nesse dia, chegado a casa, fechei-me no quarto e chorei. O mundo acabava de desabar por completo sobre mim, as cores eram negras, o sol escuro e a música sombria tudo parecia não fazer parte de uma vida simples e normal.




Texto de Ayhynek
Edição Musical de Ayshynek